um olhar demorado

hoje demorei. aliás. hoje quis demorar. entrei e saí. lá dentro cantava-se. escolhi o silêncio. o silêncio e o sol. sentei-me cá fora, num dos poucos lugares à sombra. gosto do sol, é verdade. mas gosto mais do sol, quando estou à sombra. só gosto do sol sem sombra na praia.... escrevia eu. sentada à sombra, olhei em volta e vi um espaço que eu já conheço há muito tempo. mas, como acontece com as pessoas, também acontece com os espaços. olhamos mas nem por isso reparamos. passamos tempo com elas (ainda estou a escrever sobre as pessoas), mas nem sempre lhes damos importância. ou nos apercebemos da sua importância na nossa vida. e quando damos, foram as pessoas que (já) passaram. com o espaços acontece-nos a mesma coisa. com aquele espaço aconteceu-me isso mesmo. à sombra, olhei mas não reparei. depois comecei a tentar reparar. fiz um esforço mental para tentar ver aquele espaço como se fosse a primeira vez. como se fosse uma turista na minha própria terra. o que via eu ali? uma igreja com uma fachada bonita (gosto pessoal). um adro bem arranjado. arvores bonitas rodeadas de canteiros floridos. o sol quente, o chilrear dos passaros, uma ou outra pessoa que passava. lá de dentro soavam canticos de orações. fechei os olhos. tudo aquilo me parecia tirado de um postal. abro os olhos e reparo que alguém se aproxima. que vergonha. viu-me de olhos fechados. se calhar não viu. é o "doxa" que se aproxima. não é nada.  lembrei-me que era uma turista. não conhecia aquele senhor. supostamente. com a ajuda das canadianas, sentou-se num dos bancos do outro lado do adro. tem mau aspecto. mas ainda não me fez nada de mal. não devemos julgar as pessoas. e afinal estou numa vila pequena. todos saiem à rua como se a rua fosse a sua casa. e vendo bem, até é. o senhor fica-se, olhando aqui e ali. repara em alguma coisa no chão. com mais ou menos esforço apanha algo. começa a partir algo com uma pedra. calculo que tenha apanhado a pedra. é uma noz que parte, em cima do banco de pedra e de seguida come. a rua é mesmo a sua casa. passam mais umas pessoas, cumprimentam-no. eu estou mais desviada do caminho de entrada para a Igreja. passo despercebida. ainda bem. [estou a gostar deste momento]. aquele senhor deve ser conhecido cá da terra. e não deve ser má pessoa. senão as pessoas não o cumprimentavam. não sei se é do sol, ou por ser feriado, mas as pessoas não têm pressa. deslizam devagarinho em direcção à entrada. não correm atrás de nada e nada corre atrás delas. é um movimento uniforme. era tão bom que fosse sempre assim. acordo sobressaltada desta especie de sono. o sino berra lá de cima. bolas, já estou atrasada. e ainda não ensaiei o aleluia. não organizei as leituras. não fiz tudo o que costumo fazer... um dia destes não tiro a mascara de turista, deixo o sino berrar e fico-me ao sol e aprecio tudo como se fosse realmente a primeira vez!

Comentários

burro@solta disse…
é "in graçado" ver o cenário k eu tbem conheço descrito nas tuas palavras.

Não tão "in graçado" e algo que me acontece muito é olhar sem ver.

por isso... concordo.
sai "um olhar demorado" pra esa do canto sff.

tenho dito!!!


e... o "doxa" é pacifico!!!
miniPlantas disse…
....surpreendes-me todos os dias


gosto do teu estilo...
leve ...
brincalhão ...
comunicativo ...
feliz...
corajoso ...força continua